Dourado derrotou os xiitas gays
E termina mais um Big Brother Brasil… a décima edição do programa cuja fórmula incessantemente repetida de gincana de resistência física e mental – com doses generosas de exibicionismo – já se desgastou, apesar da ânsia de renovação demonstrada pela TV Globo.
Há muito desencanei de Big Brother – fui fã desse tipo de reality-show durante um bom tempo, mas minha mente cansada do non-sense televisivo pediu-me entretenimentos mais edificantes. Não recrimino quem assiste ao programa, e ainda acredito que o BBB é um dos mais sensacionais cases publicitários da mídia brasileira. Anos atrás, em uma entrevista, o diretor Boninho citou o BBB como uma verdadeira máquina de fazer dinheiro. Especulou-se, ao longo das edições, sobre as cotas milionárias pagas pelos patrocinadores: mesmo que alguma edição do reality-show tivesse sido um fracasso de audiência, os valores pagos com cotas antecipadas de publicidade cobriam, com sobra, os gastos de produção antes mesmo de a temporada começar. Assim, a Globo tem todos os motivos do mundo para insistir na exibição do Big Brother Brasil, malgrado as reclamações de intelectuais e críticos da televisão, que merecidamente torcem o nariz para o zoológico humano exibido 24 horas por dia, 7 dias por semana, durante três longos meses de verão.
Não tenho muito o que comentar desta edição, que mal acompanhei. Foi engraçado ver um dos meus contatos virtuais de Twitter e Orkut, a publicitária Tessália Serighelli, falando, brigando, xingando e sassaricando debaixo de um edredon. Foi curioso saber que a professora Elenita é amiga de uma colega da minha esposa. Foi divertido ver a ex-policial baiana Anamara correndo atrás do finalista Cadu. Diversão reciclada e requentada, tal como as telenovelas, que há quarenta anos não mudam.
Só há um aspecto particular desta edição que me chamou bastante a atenção. Apregoada como o “BBB da diversidade”, esta décima edição reuniu uma fauna de homossexuais como nunca antes. O maquiador e drag-queen Di César, a jornalista Angélica e o emo Serginho fizeram a alegria da militância gay. Di César, no início do programa, era considerado o favorito para ganhar o prêmio de R$ 1,5 milhão. Tudo parecia armado para um grande triunfo gay quando, para surpresa dos telespectadores, dois ex-BBBs tiveram a chance de disputar novamente o reality-show nesta edição. Um deles se chama Marcelo Dourado.
Na quarta edição do programa, Dourado teve uma participação polêmica. Era truculento e baixo (para se vingar de quem tomava seu iogurte escondido à noite, chegou a enfiar catarro dentro do laticínio). Saiu do programa semanas antes da final, e ficaria detestado e esquecido do público por um bom tempo.
Resgatado das cinzas do ostracismo, Dourado roubou a cena no BBB 10. Odiado por muitos telespectadores por seu machismo e suas maneiras estúpidas, ele também angariou a simpatia de muitos outros telespectadores do reality-show, exatamente por servir de antítese ao ativismo gay predominante na programação da TV Globo (e, em particular, neste Big Brother Brasil). Num reality-show que deveria celebrar a diversidade sexual, Dourado materializou uma forte reação conservadora vinda de uma parte da sociedade (os fãs de BBB) que, supunha-se, deveria ser mais liberal.
A provável coroação de Marcelo Dourado como vencedor desta edição do Big Brother Brasil reforça a tese (discutida e polemizada mesmo nos meios GLSBT) de que o ativismo gay provoca maior reação homofóbica. Indivíduos homoafetivos de conduta mais discreta tendem a rechaçar a super-exposição e os movimentos de autoafirmação gay. Os ativistas radicais, muitas vezes, querem generalizar o conceito de homofobia – para eles, homofóbicos não são apenas os que têm aversão total aos homossexuais, mas também aqueles que, embora não discriminem os indivíduos, apenas não gostam do ativismo e da excessiva divulgação de valores gays. A polêmica é tamanha entre os gays que, não raro, os ativistas acusam os homoafetivos de perfil mais discreto de serem igualmente homofóbicos.
Certamente esta é uma dura derrota midiática dos xiitas gays. Mas, longe de ser uma vitória da homofobia, o fenômeno Marcelo Dourado fará os ativistas GLSBT repensarem suas estratégias e suas formas de mobilização junto à opinião pública. Para alguma coisa, enfim, serviu o BBB 10.
