Por motivos pessoais e profissionais, tenho postado bem menos ativamente nestas eleições do que no passado. Quem acompanha o meu blog há mais tempo deve-se lembrar o quanto me engajei nas eleições de 2002 e 2006. Mas ainda há tempo para algumas considerações.
Este ano, como diria uma conhecida minha, estamos fadados a escolher, no Halloween, entre uma bruxa e um bruxo. Ainda que o antagonismo e o radicalismo nas campanhas de Dilma Rousseff e José Serra tenham se exacerbado nas últimas duas semanas, para boa parte da opinião pública (eu, inclusive) a impressão que se tem é de que são dois presidenciáveis com visões políticas muito semelhantes. Ambos oriundos da oposição ao regime militar, comodamente rotulados no passado como políticos “de esquerda”, que penderam para o centro. Serra hoje representa, na verdade, parte da visão “de direita”, embora tenha uma dificuldade enorme em admitir isso.
A não ser que haja uma verdadeira catástrofe no debate de hoje, a ser exibido pela TV
Globo, acho difícil que Dilma perca essa eleição. Se perder, poderá creditar boa parte da culpa às sistemáticas campanhas de difamação que sofreu praticamente durante todo o período eleitoral (sobre a questão do aborto, terrorismo, corrupção, etc., etc.). Se Dilma ganhar, deverá creditar parte dos méritos à Internet e à forte militância virtual, que transformou a web numa mídia de “contra-informação”, servindo como contra-peso à forte resistência da mídia tradicional brasileira (especialmente os veículos controlados pelos grupos Globo, Abril, Folha e Estadão) à candidatura petista. E Dilma deverá creditar sua eventual vitória, claro, ao cabo-eleitoral-mor Lula, que transferiu todos os votos conquistados pelo Bolsa-Família à sua outrora desconhecida candidata.
Mesmo com um eventual revés nas urnas no próximo domingo, Serra sai mais forte desta eleição do que em 2002, quando encarou uma derrota antecipada frente ao imbatível Lula. Continuará sendo uma peça importante no PSDB, a despeito da voracidade de Aécio Neves e Geraldo Alckmin. Se eleito, Serra terá um desafio muito grande: quebrar o ciclo populista de Lula. O caminho natural dos tucanos seria apostar no crescimento econômico e nas obras de infraestrutura como balizadores de seu governo.
No Distrito Federal, onde resido, o petista Agnelo Queiroz deve ser eleito governador sem grandes dificuldades, quebrando um ciclo de doze anos de rorizismo (Joaquim Roriz governou de 1999 a 2006, sendo substituído por seu pupilo José Roberto Arruda, que foi preso e não completou o mandato). Weslian Roriz, que substituiu o marido enrolado com a Lei da Ficha Limpa, vai ficar algum tempo no anedotário político nacional até cair no ostracismo. Com Joaquim Roriz proibido de concorrer a cargos públicos até 2022, encerra-se um ciclo político que alterou os rumos da capital do país — muito embora as filhas do clã, Jacqueline e Liliane Roriz, eleitas deputadas, tenham cacife eleitoral para dar continuidade às políticas do pai.
Se a eleição parece uma barbada para o barburdo Agnelo Queiroz, não vai ser nada fácil governar tendo, na base de apoio, políticos do PMDB e outros partidos que historicamente estiveram ligados ao rorizismo. Ao mesmo tempo em que há uma boa vontade da população em tentar acreditar que o governo Agnelo vai romper com as práticas clientelistas do passado, sempre fica uma pontinha de desconfiança sobre os rumos que um governo da aliança PT-PMDB pode tomar.
Falo mais sobre a reta final das eleições, as baixarias de campanha, e os desafios dos eleitos na edição 104 do Podcast do Alexandre Sena. Ouça-a antes de votar no próximo domingo!